Publicada em 09-07-2010
As empresas de publicidade são realmente criativas e merecem cada centavo que ganham. Existe uma publicidade do Mastercard que, de maneira simples e com alguma poesia, relaciona duas coisas que o dinheiro pode comprar e uma que "não tem preço". Uma coisa que, na classificação tradicional do Direito Civil é considerada como "fora do comércio". Coisas como um sorriso de criança, um brilho no olhar da pessoa amada, um momento de liberdade, ou de singela alegria que não se pode pagar com cartão de crédito. Nem com dinheiro.A publicidade deles é tão boa que fica bem claro que as coisas que não têm preço valem mais do que as que o têm. E foi no espírito dessa peça publicitária que me senti no último sábado. Com base nos meus próprios sentimentos após a partida Argentina X Alemanha, posso enumerar as seguintes coisas:
- Camisa pirata da seleção brasileira, Made in China, antes da eliminação do Brasil: R$15,00.
- Vuvuzela de plástico, Made in Macaxeira: R$5,00.
- Ver a seleção argentina voltar de quatro para casa: Não tem preço.*
Mas, brincadeiras à parte, a Copa de 2010 tem mostrado novidades e trazido algumas lições. Em primeiro lugar, uma divisão entre países importadores e exportadores de atletas que dá o que pensar. França, Itália, Inglaterra, países que tradicionalmente recebem atletas do mundo todo, tiveram um desempenho pífio nessa copa. De tanto contarem com o talento dos jogadores estrangeiros, regiamente remunerados, deixaram de desenvolver o talento de seus próprios atletas. Em segundo lugar, o desmentido de que o fato de os atletas ficarem confinados, ou gozarem de toda a liberdade no período anterior aos jogos tenha alguma importância: a seleção concentrada e isolada de Dunga e a seleção liberada e farrista de Maradona tiveram o mesmo destino, ou seja, foram eliminadas nas quartas de final. Em terceiro lugar, a constatação de que criatividade e disciplina não se excluem, mas se complementam.E não são privilégio de nenhum país. Além da alegria de ver Maradona voltar para casa derrotado pelo incrível placar de quatro a zero, ele que dizia que o Brasil não tem goleiros, tivemos o prazer estético de ver a Alemanha jogar, de mostrar um jogo belo, criativo, leve, tão bem concatenado que às vezes a equipe parecia estar dançando em campo numa abertura de olimpíada. Há quanto tempo a gente não via um jogador fazer gol entrando com bola e tudo na trave? Em plena era das decisões por cobrança de pênaltis, os meninos da Alemanha mostraram um futebol livre, leve e solto, lindo como o futebol que o Brasil mostrou na copa de 1958 na Suécia e que inspirou uma canção de que só os mais velhos dentre nós se lembram: "Didi, Pelé, Vavá, bailaram lá na Europa, e a copa vem pra cá, no duro...”
Enfim, a seleção alemã fez uma partida linda, comovente, que até me consolou da eliminação do Brasil. Afinal, como diz a versão em português da linda Luzes da Ribalta de Charles Chaplin, "Para que sonhar o que passou,/Lamentar perdidas ilusões,/Se o ideal que sempre nos acalentou/Renascerá em outros corações?"
João Pessoa, 05 de julho de 2010
* É claro que não odeio a Argentina. Ninguém odeia. Mesmo Maradona, seu técnico chatinho, já foi até musa de uma canção no Brasil, no tempo em que ele andava mal. Aquela que diz: "Maradona, Maradona/ Levanta, sacode a poeira e dá volta por cima"... Mas, com bom humor, os argentinos são o povo que a gente adora odiar.
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